quarta-feira, 25 de maio de 2011

Puro acaso

Foto: Clayton Castilho
Um dia ela me disse assim, por acaso, que, por não conseguir acompanhar-lhe o vôo, algumas asas tinham sido deixadas pelo caminho. Não parecia haver apego em sua voz. Era fato. Se não acompanhasse o barco, estaria fadada a se plantar no porto, esperando um vento que não viria. Lembro-me claramente do medo que agitava aquela noite. Mesmo assim, uma luz se acendeu e iluminou o caminho até que eu chegasse em casa. Por dias fiquei ouvindo a voz que falava de anjos e de caminhos. Ardilosa, roubei-lhe o hábito. Desde então passei a colecionar asas. Tanto tempo depois ela parece estacionada em versos de alegria e alento. Deve ter chegado a algum porto bem seguro. Quando liga é para comparar minhas estrofes a de algum imortal indefeso. Não é de seu feitio mentir, mas ainda penso que ela é constantemente enganada pelo coração exageradamente grande. O acaso que nos aproximou é um enigma e, igualmente, uma retórica. Tal qual um papel amarelado esquecido em gramáticas e sintaxes. Ela sempre teve razão: nada mesmo, é por acaso.

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